“Pai nosso que estas
no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai
as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não
nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.”
A
oração acima, o Pai Nosso, é bem conhecida por todos. Sua autoria é atribuída a
Jesus pelos Evangelhos. Ela é recitada por todos aqueles que se dizem cristãos,
sejam católicos, evangélicos, protestantes, e até mesmo espíritas.
Jesus,
que é para muitos o guia e modelo da humanidade – para todos que se dizem
cristãos – estabeleceu poucas regras de conduta em sua doutrina absurdamente
simples e universal: Amor, Respeito e Perdão. Essas três palavras simples
resumem tudo que ele ensinou.
Amor:
E nisso todos conhecereis que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos
outros.
Respeito:
Fazei ao próximo como quereis que vos façam, esta é a Lei e os Profetas.
Perdão:
Não te digo que deveis perdoar 7 vezes mas, setenta vezes sete vezes.
Aquele
que tiver uma oferta a fazer diante do altar e se lembrar que tem algo contra
seu irmão, deixe a oferta e se reconcilie com seu irmão, depois volte e faça a
oferta.
Quero
a misericórdia e não o sacrifício.
~~~~~~~~~
Como se pode ver Jesus por diversas vezes, e de formas
diferentes, insistiu na necessidade da prática do perdão. Amor e Respeito são
sentimentos mais simples, que o bom senso muitas vezes nos ajuda a praticar.
Perdão é mais difícil, supõe uma maior humildade, maior aceitação da vontade de
Deus e maior desprendimento.
Coloquei
acima deste texto a versão do Pai Nosso que costumo fazer. Não é uma oração
fácil, principalmente quando se presta atenção naquilo que se está dizendo. É
uma oração que coloca na boca de quem a pronuncia alguns compromissos, que
estão interligados.
Muitas
pessoas pronunciam esta oração de outra forma, substituindo as palavras ofensas
e ofendido por dívidas e devedores. Aparentemente nada de mais. Mas, isso pode
encobrir uma armadilha, especialmente se a pessoa aceitar os ensinamentos sobre
reencarnação.
A
armadilha está em achar que dívidas e devedores se referem apenas a situações
do pretérito e não do presente. Quando falamos do passado, realmente a locução
dívidas e devedores é mais correta, pois trazemos de outras encarnações
situações que devemos corrigir, que podem ser muito bem exemplificadas na
figura da dívida a ser paga. Porém, nem sempre se tratam de dívidas que vem de
outras encarnações, às vezes nem dívidas são, são apenas ofensas e pequenas
atitudes que tomamos no dia a dia, ou que ocorrem conosco no dia a dia, e não
sabemos relevar. Ofensas, insultos, palavras descuidadas, atos de indiferença
ao sofrimento alheio, descuidos, julgamentos, entre muitas outras coisas. Nesse
sentido as palavras ofensas e ofendidos são mais próprias e corretas.
Perdão
não significa inação diante do mal, nem tão pouco indiferença. Significa evitar
julgamentos precipitados de pessoas e situações, o uso da misericórdia no trato
com aquele que praticou o ato e o ódio “ao pecado e não ao pecador”.
Infelizmente,
tenho visto, lido e ouvido mais pessoas repudiando o pecador que o pecado. Uso
a palavra pecador no sentido de “alguém que cometeu um ato errado”, que pode ou
não ser criminoso. Não a uso no sentido religioso do termo.
O
Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo XV, Instruções dos Espíritos, traz
a seguinte observação feita pelo espírito Paulo: “Porque não basta uma virtude negativa, é necessário uma virtude ativa.
Para fazer-se o bem, mister sempre existe a ação da vontade; para se praticar o
mal, basta as mais das vezes a inércia e a negligência.”
Assim,
não basta dizer que não odeia, é preciso amar; não basta dizer que não deseja o
mal, é preciso perdoar consciente e voluntariamente. O perdão, como virtude que
é precisa ser praticado ativamente.
Vejo
pessoas emitindo julgamentos sobre fatos e pessoas que cometem crimes, e até
cujos crimes sequer foram provados, exigindo punições severas, algumas
pleiteiam até mesmo punir seus defensores, como se o defensor fosse responsável
pelo ato daquele que representa. Outros dizem que o defensor também é criminoso
pois recebe o pagamento com dinheiro oriundo de atos criminosos – e esquecem
que muitos podem ter recebido pagamento de boa fé da mesma maneira, tais como
donos de padaria, médicos, dentistas, etc. Outro dia perguntei a um amigo meu,
que defendia tal tese: então você prefere pagar pela defesa? Ele me olhou
espantado, e eu expliquei: ele pode pagar o advogado particular ou ser
defendido por um advogado pago pelo Estado, cujo dinheiro vem dos impostos que
pagamos. A resposta foi: quero que ele não tenha advogado nenhum, que seja
julgado e condenado. Quando observei que
isso não é justiça mas vingança, e foge aos ensinamentos de Jesus, pois a lei
de Talião foi revogada por ele, meu amigo ficou bastante abespinhado,
principalmente quando completei que a atitude dele é bem menos cristã que a legislação
brasileira.
A
atitude do meu amigo não é isolada, é bastante comum em quase todas as pessoas,
e mesmo eu quando deixo os sentimentos falarem mais alto que o conhecimento que
tenho das leis humanas e divinas me pego tendo vontade de tratar a algumas
pessoas da mesma forma como elas tratam ao mundo – e nesses momentos chego a
lamentar que a Constituição Federal vete a pena de morte e de prisão perpétua.
Geralmente, quando me acalmo vem aquele sentimento de vergonha combinado com
culpa de alguém que sabe ter deixado os sentimentos de ódio, rancor, revolta,
subirem a tona e falarem mais alto que o amor, a piedade e o perdão. Mea culpa, mea maxima culpa.
O
perdão não é uma virtude fácil, exige desprendimento, prática diária, e
vigilância constante. Costumo dizer que perdoar não é esquecimento, se fosse
pessoas com mal de Alzheimer seriam evoluidíssimas. Perdoar é lembrar sem ódio,
revolta ou desejo de mal. A lembrança é necessária até mesmo como forma de
aprendizado de nossos erros e de prevenção de novos erros.
Como
toda virtude não se começa a praticar o perdão por grandes ofensas, mas por
pequenas. Não ficar reprisando na mente aquela discussão com o chefe, a mulher,
o amigo, o filho, pensando em como deveria ter respondido para derrota-lo com seus
argumentos; não ficar lembrando do garçom desatento ou grosseiro por vários
dias, mas resolver o problema na hora, com educação; não ficar carregando
dentro de si pequenas alfinetadas que todos recebemos no dia a dia, e que nem
sempre conseguimos superar de forma real. Levamos uma fechada e queremos
retribuir, recebemos uma ofensa e disparamos outra, vivemos ainda no “olho por
olho” em nosso dia a dia. Sem lembrar que “olho por olho e acabaremos todos
cegos”.
O
Sermão da Montanha nos diz que da mesma forma como julgamos seremos julgados,
pela mesma medida com que medimos seremos medidos. Se queremos que compreendam
nossos erros e aceitem nossas desculpas devemos fazer o mesmo. Mesmo que seja
um perdão interesseiro é uma forma de perdão e deve ser praticada.
Apenas
quando já tivermos aprendido a perdoar pequenos atos, conseguiremos perdoar os
maiores. Alguns dizem: jamais perdoaria o assassino de um filho ou o contrário,
que certamente perdoaria. Antes de dizer isso veja se consegue perdoar o
motorista do carro que lhe deu uma fechada, se nem isso você consegue, acha que
perdoará algo muito maior e mais dolorido?
Está
na hora de todos e cada um de nós assumirmos a responsabilidade que temos
perante o mundo, e pela transformação moral do planeta. Até agora temos nos
especializado em praticar uma virtude omissiva, limitando-nos a não fazer o
mal, deixando de fazer o bem, ou cobrando de outros a prática do bem. Que tal
começarmos nós mesmos a praticar ativamente as virtudes e atitudes que cobramos
de todos que nos rodeiam?
