sexta-feira, abril 27, 2012

Comentários a respeito do perdão


“Pai nosso que estas no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.”

                        A oração acima, o Pai Nosso, é bem conhecida por todos. Sua autoria é atribuída a Jesus pelos Evangelhos. Ela é recitada por todos aqueles que se dizem cristãos, sejam católicos, evangélicos, protestantes, e até mesmo espíritas.

                        Jesus, que é para muitos o guia e modelo da humanidade – para todos que se dizem cristãos – estabeleceu poucas regras de conduta em sua doutrina absurdamente simples e universal: Amor, Respeito e Perdão. Essas três palavras simples resumem tudo que ele ensinou.

                        Amor: E nisso todos conhecereis que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.
                        Respeito: Fazei ao próximo como quereis que vos façam, esta é a Lei e os Profetas.

                        Perdão: Não te digo que deveis perdoar 7 vezes mas, setenta vezes sete vezes.

                        Aquele que tiver uma oferta a fazer diante do altar e se lembrar que tem algo contra seu irmão, deixe a oferta e se reconcilie com seu irmão, depois volte e faça a oferta.

                        Quero a misericórdia e não o sacrifício.

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Como se pode ver Jesus por diversas vezes, e de formas diferentes, insistiu na necessidade da prática do perdão. Amor e Respeito são sentimentos mais simples, que o bom senso muitas vezes nos ajuda a praticar. Perdão é mais difícil, supõe uma maior humildade, maior aceitação da vontade de Deus e maior desprendimento.

                        Coloquei acima deste texto a versão do Pai Nosso que costumo fazer. Não é uma oração fácil, principalmente quando se presta atenção naquilo que se está dizendo. É uma oração que coloca na boca de quem a pronuncia alguns compromissos, que estão interligados.

                        Muitas pessoas pronunciam esta oração de outra forma, substituindo as palavras ofensas e ofendido por dívidas e devedores. Aparentemente nada de mais. Mas, isso pode encobrir uma armadilha, especialmente se a pessoa aceitar os ensinamentos sobre reencarnação.

                        A armadilha está em achar que dívidas e devedores se referem apenas a situações do pretérito e não do presente. Quando falamos do passado, realmente a locução dívidas e devedores é mais correta, pois trazemos de outras encarnações situações que devemos corrigir, que podem ser muito bem exemplificadas na figura da dívida a ser paga. Porém, nem sempre se tratam de dívidas que vem de outras encarnações, às vezes nem dívidas são, são apenas ofensas e pequenas atitudes que tomamos no dia a dia, ou que ocorrem conosco no dia a dia, e não sabemos relevar. Ofensas, insultos, palavras descuidadas, atos de indiferença ao sofrimento alheio, descuidos, julgamentos, entre muitas outras coisas. Nesse sentido as palavras ofensas e ofendidos são mais próprias e corretas.

                        Perdão não significa inação diante do mal, nem tão pouco indiferença. Significa evitar julgamentos precipitados de pessoas e situações, o uso da misericórdia no trato com aquele que praticou o ato e o ódio “ao pecado e não ao pecador”.

                        Infelizmente, tenho visto, lido e ouvido mais pessoas repudiando o pecador que o pecado. Uso a palavra pecador no sentido de “alguém que cometeu um ato errado”, que pode ou não ser criminoso. Não a uso no sentido religioso do termo.

                        O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo XV, Instruções dos Espíritos, traz a seguinte observação feita pelo espírito Paulo: “Porque não basta uma virtude negativa, é necessário uma virtude ativa. Para fazer-se o bem, mister sempre existe a ação da vontade; para se praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a negligência.”

                        Assim, não basta dizer que não odeia, é preciso amar; não basta dizer que não deseja o mal, é preciso perdoar consciente e voluntariamente. O perdão, como virtude que é precisa ser praticado ativamente.

                        Vejo pessoas emitindo julgamentos sobre fatos e pessoas que cometem crimes, e até cujos crimes sequer foram provados, exigindo punições severas, algumas pleiteiam até mesmo punir seus defensores, como se o defensor fosse responsável pelo ato daquele que representa. Outros dizem que o defensor também é criminoso pois recebe o pagamento com dinheiro oriundo de atos criminosos – e esquecem que muitos podem ter recebido pagamento de boa fé da mesma maneira, tais como donos de padaria, médicos, dentistas, etc. Outro dia perguntei a um amigo meu, que defendia tal tese: então você prefere pagar pela defesa? Ele me olhou espantado, e eu expliquei: ele pode pagar o advogado particular ou ser defendido por um advogado pago pelo Estado, cujo dinheiro vem dos impostos que pagamos. A resposta foi: quero que ele não tenha advogado nenhum, que seja julgado e condenado.  Quando observei que isso não é justiça mas vingança, e foge aos ensinamentos de Jesus, pois a lei de Talião foi revogada por ele, meu amigo ficou bastante abespinhado, principalmente quando completei que a atitude dele é bem menos cristã que a legislação brasileira.

                        A atitude do meu amigo não é isolada, é bastante comum em quase todas as pessoas, e mesmo eu quando deixo os sentimentos falarem mais alto que o conhecimento que tenho das leis humanas e divinas me pego tendo vontade de tratar a algumas pessoas da mesma forma como elas tratam ao mundo – e nesses momentos chego a lamentar que a Constituição Federal vete a pena de morte e de prisão perpétua. Geralmente, quando me acalmo vem aquele sentimento de vergonha combinado com culpa de alguém que sabe ter deixado os sentimentos de ódio, rancor, revolta, subirem a tona e falarem mais alto que o amor, a piedade e o perdão. Mea culpa, mea maxima culpa.

                        O perdão não é uma virtude fácil, exige desprendimento, prática diária, e vigilância constante. Costumo dizer que perdoar não é esquecimento, se fosse pessoas com mal de Alzheimer seriam evoluidíssimas. Perdoar é lembrar sem ódio, revolta ou desejo de mal. A lembrança é necessária até mesmo como forma de aprendizado de nossos erros e de prevenção de novos erros.

                        Como toda virtude não se começa a praticar o perdão por grandes ofensas, mas por pequenas. Não ficar reprisando na mente aquela discussão com o chefe, a mulher, o amigo, o filho, pensando em como deveria ter respondido para derrota-lo com seus argumentos; não ficar lembrando do garçom desatento ou grosseiro por vários dias, mas resolver o problema na hora, com educação; não ficar carregando dentro de si pequenas alfinetadas que todos recebemos no dia a dia, e que nem sempre conseguimos superar de forma real. Levamos uma fechada e queremos retribuir, recebemos uma ofensa e disparamos outra, vivemos ainda no “olho por olho” em nosso dia a dia. Sem lembrar que “olho por olho e acabaremos todos cegos”.

                        O Sermão da Montanha nos diz que da mesma forma como julgamos seremos julgados, pela mesma medida com que medimos seremos medidos. Se queremos que compreendam nossos erros e aceitem nossas desculpas devemos fazer o mesmo. Mesmo que seja um perdão interesseiro é uma forma de perdão e deve ser praticada.

                        Apenas quando já tivermos aprendido a perdoar pequenos atos, conseguiremos perdoar os maiores. Alguns dizem: jamais perdoaria o assassino de um filho ou o contrário, que certamente perdoaria. Antes de dizer isso veja se consegue perdoar o motorista do carro que lhe deu uma fechada, se nem isso você consegue, acha que perdoará algo muito maior e mais dolorido?

                        Está na hora de todos e cada um de nós assumirmos a responsabilidade que temos perante o mundo, e pela transformação moral do planeta. Até agora temos nos especializado em praticar uma virtude omissiva, limitando-nos a não fazer o mal, deixando de fazer o bem, ou cobrando de outros a prática do bem. Que tal começarmos nós mesmos a praticar ativamente as virtudes e atitudes que cobramos de todos que nos rodeiam?

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